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Variáveis visuais e a legenda representadas no mapa

Saudações caros colegas,

Neste post vamos enfatizar e comentar um pouco mais sobre a legenda e as principais características dos símbolos que podem representar os objetos em um mapa. Para isso, será necessário entendermos um dos conceitos mais importantes da cartografia temática, que são das variáveis visuais.

Assim, é importante entendermos inicialmente que todos os povos, de alguma forma, sempre tentaram representar os seus lugares de moradia e de subsistência. Essa representação iniciou-se muito antes da linguagem escrita – ou das palavras, pois se supõe que primeiramente o Homem construiu um modo de se comunicar por meio de desenhos (representações pictóricas) e somente depois utilizou a fala e a escrita e, dependendo do tipo de tecnologia disponível em diferentes épocas, o Homem desenhava em paredes, placas de barro, pergaminhos, papéis, até chegar nos dias atuais, com a utilização dos computadores.

Todavia, foi somente a partir do século XX que os mapas passaram a ter o padrão normativo atual, estabelecido por leis e convenções transformadas em normas aceitas pelos estudiosos e por todos os que usam os produtos da Cartografia. Estabeleceu-se uma linguagem artificial, padronizada, associativa e universal com o objetivo de promover uma melhor compreensão para quem produz e para quem lê os mapas, principalmente para uma melhor visualização do espaço geográfico, alcançando leitores com menor ou maior nível de conhecimento.

Os mapas passaram a fazer parte do dia-a-dia do homem em sociedade, figurando em livros, revistas, jornais, televisão, internet, e muitos outros meios de comunicação humana. Inclusive nos panfletos distribuídos nas ruas, em propagandas que mostram a localização de um uma loja, farmácia, um imóvel ou um serviço. De modo que, as técnicas cartográficas modernas, permitiram que as representações ganhassem mais e melhor sentido.

No contexto da evolução da Cartografia, os mapas e demais representações cartográficas aprimoraram suas legendas. Ou seja, aquela parte de uma carta ou mapa que contém o significado dos fenômenos representados nela, geralmente traduzidos por símbolos, cores e traços desenhados cuidadosamente para que o leitor de mapas entenda do que trata a representação cartográfica, como demonstrado na figura 01 abaixo:
Figura 01: Convenções e legenda de um mapa municipal estatístico do município de Abaetetuba-PA.
Fonte: Adaptado pelo autor a partir de IBGE (2000)
A legenda de um mapa está situada, geralmente, dentro da moldura do mesmo, com todos os símbolos, cores e outros artifícios capazes de explicar de modo resumido a ocorrência de um objeto ou fenômeno, de acordo com os pontos, linhas ou polígonos distribuídos pela superfície da representação – o próprio mapa. Nos casos em que a legenda é mais complexa ou mais volumosa, como acontece em cartografia náutica e em algumas cartas temáticas, esta pode ser exterior à carta.

Desse modo, o objetivo dos mapas temáticos é representar o espaço geográfico, além de fornecer, com o auxílio de símbolos qualitativos (figura 02) e/ou quantitativos (figura 03) dispostos sobre uma base de referência, geralmente extraída dos mapas e cartas topográficas, com informações sobre um determinado tema ou fenômeno presente no território mapeado (MARTINELLI, 1993).

Nesse sentido, os mapas e cartas geológicas, geomorfológicas, de uso da terra e outras, constituem exemplos de representação temática em que a linguagem cartográfica privilegia a forma e a cor dos símbolos como expressão qualitativa que surge na forma de convenções e legenda, tal como na figura 02.
Figura 02: Exemplo de representação qualitativa por cores no mapa dos continentes
Fonte: Elaborado pelo autor
Assim, a descrição qualitativa é aquela que mostra os atributos (qualidades), a cada uma das circunstâncias ou características dos fenômenos (como os aspectos nominais), as quais podem ser classificadas segundo um determinado padrão.

Os mapas de densidade de população, de precipitação pluviométrica, de produção agrícola, de fluxos de mercadorias, constituem exemplos de que pontos, dimensões dos símbolos, linhas iguais (isarítmicas), áreas iguais (corópletas), figuras (diagramas) e outros recursos gráficos, que podem ser utilizados para representar as formas de expressão qualitativa, assim como a descrição quantitativa (figura 03), que pode mensurar o fenômeno através de uma unidade de medida ou através de um percentual (aspecto ordinal).

Figura 03: Exemplo de representação quantitativa num mapa do Estado do Pará
Fonte: Elaborado pelo autor
Desse modo, na elaboração de um mapa são estabelecidos limites a partir dos dados que pertencem a ele, enfatizando para a Cartografia Temática as características dos dados a serem representados, se são físicos e/ou estatísticos e a forma como estes devem ser graficamente desenhados e relacionados com a superfície da Terra. Portanto, para a representação cartográfica há, pelo menos, quatro regras básicas orientadoras das representações temáticas:

a) um fenômeno se traduz por um sinal, e um só. O que significa que um fenômeno, em um mesmo mapa, não poderá ser mostrado com dois ou mais sinais. Assim a representação da presença de ouro, e de outros minerais, numa certa região, por exemplo, pode ser feita com um único símbolo. Mas se houver tipos variados de minerais, podemos variar também a simbologia; de modo que: x pode ser ouro; + pode ser prata; # pode ser bauxita; etc.;

b) um valor forte ou fraco se traduz por um sinal forte ou fraco, respectivamente. Por exemplo: quando representamos a densidade demográfica, as áreas menos densas são mostradas com cores ou tons claros e as áreas mais densas com cores ou tons mais escuros;

c) as variações qualitativas se traduzem pela variação da forma dos sinais. Por exemplo, se representarmos a presença de ouro, prata e bauxita numa certa região, cada um desses elementos será representado com um símbolo, de modo que fiquem bem distintos entre si. Às vezes, o símbolo pode ser o mesmo, variando-se a sua cor para representar cada um dos elementos, representados por x, +, #; ou @, - , *; ...;

d) as variações quantitativas se traduzem pela variação do tamanho dos sinais (O, O, o), ou pela quantidade/intensidade destes sinais em uma mesma região.

Em função da extensão do objeto ou do fenômeno tal como ele existe no campo, distingue-se três variações importantes, definidas por Bertin e apresentadas por Joly (1990) como modos de implantação (figura 04) os quais são:

1 - implantação pontual, usada para representar superfícies muito pequenas ou mesmo insignificantes, as quais necessitam ser localizadas com precisão, como cidade, aeroporto, porto e outras;

2 -  implantação linear, usada para representar fenômenos em que a largura é muito pequena ou desprezível em relação ao comprimento, mas que, apesar disso pode ser traçada com exatidão, como estradas, rios e outras;

3 - implantação zonal, usada para representar superfícies proporcionais as suas ocorrências na realidade, de acordo com a escala do mapa, como uma área de campo, floresta ou plantio, além de outros fenômenos (unidades de mapeamento).

Figura 04: Relação dos modos de implantação com as variáveis visuais de Bertin
Fonte: Joly (1990, p. 04)
Esses modos de implantação se modificam de acordo com as características e escala de representação do fenômeno, constituindo o que Joly (1990), baseado em Bertin, apresentou como “variáveis visuais”, a partir de seis variações, presentes na figura 04:

1 - A variável visual tamanho é função da quantidade do fenômeno, no caso do ponto, o seu tamanho varia de acordo com a quantidade da informação;

2 - A variável visual granulação relaciona-se ao contraste do fenômeno, de modo que a variação do preto no branco deve manter uma proporção;

3 - A variável visual cor é, em geral, relacionada as cores do arco-íris (violeta, azul, verde, amarelo, laranja, e vermelho), sendo a variação de tonalidade uma forma de usar as cores com a mesma intensidade. Usar o azul, o vermelho e o verde, é usar a variável visual “cor”, como o é usar o violeta, o amarelo e o laranja;

4 - A variável visual valor está relacionada a variação da tonalidade (no caso das cores) ou de uma sequência monocromática (níveis de cinza). O uso do azul-claro, azul médio e azul escuro corresponde a uma aplicação da variável “valor”, o que corresponde a matiz da cor azul, ou ao resultado da adição de certa quantidade de branco à cor pura ou cor “chapada” como, às vezes chamamos para a cor, enfraquecendo-a;

5 - A variável visual orientação corresponde às variações de posição de certos elementos que compõe uma implantação entre o vertical, o oblíquo e o horizontal e;

6 - A variável visual forma agrupa todas as variações geométricas ou figurativas, permitindo, ao mesmo tempo, uma qualificação precisa dos objetos e uma boa percepção de sua similitude ou de suas diferenças.

Essa relação dos modos de implantação com as variáveis visuais da figura 04 torna mais fácil a criação das convenções e legendas dos mapas, organizadas de acordo com a relação existente entre os dados. Ao utilizar essas variáveis visuais, podemos traduzir características qualitativas, ordenadas ou quantitativas em um mapa.

A variável visual mais adequada ao tipo de informação que se quer representar, e seu respectivo modo de implantação, permite a transcrição da linguagem escrita para a linguagem gráfica da Cartografia com a qual se constrói a legenda, ou seja, as relações entre os dados e suas respectivas representações.

Ainda na figura 04, percebe-se que as variáveis visuais possuem propriedades que fazem com que os fenômenos sejam percebidos de modo diferente, tendo em vista que elas podem ser: seletivas, associativas ou dissociativas, ordenadas e quantitativas. Nesse sentido, temos:

- As variáveis visuais seletivas permitem separar visualmente as imagens e possibilitam a formação de grupos de imagens. Neste grupo de variáveis estão a cor, a orientação, o valor, a granulação e o tamanho;

- As variáveis visuais associativas permitem agrupar espontaneamente, diversas imagens em um mesmo conjunto. Neste grupo de variáveis estão a forma, a orientação, a cor e a granulação, as quais podem ser vistas como imagens semelhantes;

- As variáveis visuais dissociativas, ao contrário das associativas, separam, espontaneamente, as imagens de um conjunto. Neste grupo de variáveis estão o valor e o tamanho;

- As variáveis visuais ordenadas permitem uma classificação visual segundo uma variação progressiva. Neste grupo de variáveis estão o tamanho, o valor e a granulação, e;

- As variáveis visuais quantitativas permitem relacionar, facilmente um valor numérico ao fenômeno representado, sendo a única variável visual quantitativa o tamanho, porque somente as figuras geométricas possuem uma área e um volume que pode ser visualizado com facilidade, permitindo relacionar imediatamente com uma unidade de medida e, portanto, com uma quantidade proporcional do fenômeno.

Loch (2006, p.128) escreve “que conhecer e distinguir as características de cada variável visual é importante porque ajuda o cartógrafo a construir mapas temáticos que atendem aos objetivos de comunicação e a fazer mapas capazes de transmitir a sensação condizente com as características dos dados”, consequentemente, ajuda a fazer mapas úteis (ARCHELA; THERY, 2014). Desse modo, a informação visual, para ser realmente compreendida, requer uma aprendizagem. Ela não é nem natural e nem espontânea porque possui uma linguagem própria que precisa ser apreendida.

A elaboração de um mapa temático, portanto, consiste em criar tantas imagens quanto forem os componentes existentes, ou seja, procedemos de maneiras diferentes segundo a natureza das questões que o usuário possa colocar, ou em função da sua "utilidade", tendo em vista que o mapa, enquanto suporte de informação, possui a tripla função da comunicação linguística, pois registra, trata e comunica. Sobretudo é uma representação gráfica que pode ser ao mesmo tempo, um instrumento de pesquisa e um instrumento de comunicação com o qual se passa uma mensagem.

Mais uma vez, espero ter contribuído com este texto, e agradeço o Prof. Dr. João dos Santos Carvalho (UFPA) que auxiliou em sua elaboração.

Referências

ARCHELA, R. S.; HERVE, T. Orientação metodológica para construção e leitura de mapas temáticos, Confins. Disponível em: http://confins.revues.org/3483. Acesso em: 19 outubro 2014
IBGE. Mapa municipal estatístico do município de Abaetetuba – PA. Rio de Janeiro: IBGE, 2000.
JOLY, F. A cartografia. Campinas: Papirus, 1990.
LOCH, R. E. N. Cartografia: representação, comunicação e visualização de dados espaciais. Florianópolis: Ed. UFSC, 2006.
MARTINELLI, M. Curso de Cartografia Temática. São Paulo, Contexto, 1993.

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