News

O mapeamento participativo para a análise territorial

Por Christian Nunes

Saudações a todos, 

Apresento aqui um resumo de um artigo publicado na revista Scientia Plena, disponível no link (https://www.scientiaplena.org.br/sp/article/view/3140), escrito inicialmente com a valorosa contribuição da mestranda em Geografia, a Sra. Camila Verbicaro, e que trata do mapeamento participativo enquanto metodologia de análise do território. 

No artigo completo, baseado em IFAD (2009) e outros textos citados, além de trabalhos de campo que realizamos na região amazônica, tivemos o interesse em mostrar ao leitor alguns métodos de aplicação do mapeamento participativo e, ao final, recomendamos alguns pontos importantes para quem utilizar essa técnica.

Agora, faço um breve resumo deste artigo e convido o leitor interessado a ler o artigo na integra, no link informado anteriormente. Boa leitura...

A tentativa de entender, descrever e representar os territórios sempre esteve presente na história dos seres humanos que, por meio de símbolos e figuras pictóricas, antes mesmo da escrita e da fala sistematizada em idiomas, buscavam manifestar suas primeiras impressões da realidade e as usaram para delimitar e ocupar efetivamente seus territórios de moradia, trabalho, lazer, religião, etc. Com isso, evolutivamente, as técnicas cartográficas e o uso de outros recursos tecnológicos possibilitaram ocupar diversos lugares na Terra, criando-se cidades, estados, países e outros fenômenos e objetos artificiais.
 
É nesse contexto que toma força nos últimos anos as metodologias baseadas nas metodologias participativas, que visam fomentar ainda mais a participação das coletividades locais com o propósito de conhecer sua própria realidade. 

Um diagnóstico executado por meio do mapeamento participativo, busca identificar as territorialidades exercidas e os diferentes atores que compõe esse cenário, com o intuito de proporcionar à comunidade uma melhor comunicação com os órgãos públicos, expressando os seus problemas, potencialidades e promovendo o desenvolvimento territorial.
 
O IFAD (2009) faz uma breve definição desse método de representação informando que o mapeamento participativo é a criação de mapas pela comunidade local, que em muitos casos envolve as organizações de suporte como o Governo (em diversos níveis), organizações não governamentais (ONG), universidades e outros agentes envolvidos no desenvolvimento e no planejamento relacionado com a terra. 

Nesse sentido, trata-se de um processo de produção de mapas que intenta tornar visível a associação entre terra e comunidades locais ao usar a linguagem comumente entendida e reconhecida da cartografia.
 
Dessa forma, esses mapas podem se tornar uma ferramenta de atuação, que possibilita à comunidade representar os fenômenos socioeconômicos e ambientais de suma importância para o bom desempenho e para o planejamento de ações conjuntas entre comunidades, instituições públicas e privadas. A seguir, alguns dos procedimentos de mapeamento participativo.

O Mapa mental (Croqui)

O croqui é uma representação de cunho cartográfico, embora não necessite de escala e nem de referência formal (coordenadas geográficas). Ou seja, é um tipo de mapa cognitivo ou mental que é confeccionado sem uma convenção regulamentada por órgão oficial, e que depende da percepção que seu elaborador tem do meio que o circunda, por isto não possui rigores científicos para sua concepção, conforme mostra a figura 1. 

Figura 1: Avaliação participativa do Projeto de empoderamento da comunidade para o acesso a terra, Uttar Pradesh, India. Fonte: IFAD (2009, p. 26)
Neste procedimento, sem o rigor da ciência cartográfica quanto a totalidade de seus atributos, os participantes do mapeamento têm a chance de escolher que materiais utilizar e que itens acham relevantes para representar nos mapas, avaliando quais as formas e como elas serão desenhadas, podendo a sua variação estar diretamente ligada ao grau de importância dessas feições para a comunidade. 

O mapa mental não se preocupa em representar medidas exatas, escala consistente e georreferenciada, ele está aberto para interpretação do sujeito sobre sua realidade e dá a chance desse sujeito representá-la.

Mapeamento com bases cartográficas

Neste procedimento, uma equipe de facilitadores leva à comunidade um mapa base, contendo algumas informações georreferenciadas como sede municipal e rede hidrográfica, por exemplo. Sobre ele os participantes plotarão a localização da sua comunidade, mapeando as informações que desejam representar, proporcionando uma simbologia adequada de acordo com as figuras selecionadas pelos participantes (IFAD, 2009). 

Neste tipo de mapeamento é importante que o mapa base não influencie enfaticamente as percepções dos mapeadores, não seja tendencioso, para que os participantes não sejam estimulados a representar objetos/fenômenos que não sejam aqueles relacionados às suas próprias experiências.

Figura 2: Mapeamento Participativo com a utilização de Mapa-Base
Fonte: Pesquisa de campo (2014)
Essa técnica tem um custo relativamente baixo e uma rápida resposta, além de fornecer à comunidade uma representação com precisão razoável e com muita informação do conhecimento territorial. O mapa resultante desse processo pode ser utilizado tanto para determinar dados quantitativos como distâncias e direções.

Mapeamento com imagem de sensoriamento remoto

Esta metodologia é realizada primeiramente com a confecção de uma carta-imagem produzida por meio do cruzamento dos dados cartográficos, tais como rede hidrográfica, limites municipais, rede rodoviária, pontos de GPS (Global Positioning Systems) da comunidade (escola, centro comunitário e igreja) e imagens de sensoriamento remoto de boa resolução espacial, que é levada até os participantes para plotagem de informações direto na folha, como mostrado na figura 3.

Figura 3: Mapeamento Participativo utilizando uma imagem de sensoriamento remoto, Fiji
Fonte: IFAD (2009, p. 34)
Durante o mapeamento participativo com o uso de imagens de sensoriamento remoto, os moradores locais podem desenhar por cima de um plástico ou na própria carta-imagem os objetos a serem mapeados. 

O objetivo é proporcionar aos participantes uma visualização da densidade das áreas verdes e outros objetos e fenômenos do território, com a finalidade de identificar e classificar, com base na geometria e no comportamento espectral das feições sintéticas, bem como, a partir da percepção dos participantes do mapeamento, as áreas degradadas, tais como roçados, fazendas, áreas de pastagens e outros, subsidiando a definição de áreas para usos futuros e geração de mapas temáticos.


Mapeamento com o uso de SIG

Neste mapeamento o procedimento adotado consiste em uma familiarização dos participantes com a informática e com os softwares que oferecem a opção SIG, treinando alguns participantes na operação dessas ferramentas (figura 4). 

Essa metodologia tem o intuito de democratizar esse tipo de tecnologia, no entanto, é considerada de custo elevado e complexo, sendo em maioria utilizada por especialistas em geoprocessamento.

Figura 4: Capacitação em Geoprocessamento e SIG no Laboratório de Análise da Informação Geográfica, da Universidade Federal do Pará (LAIG/UFPA). Fonte: Silva et al (2014)
A disponibilidade de laboratórios, com hardwares e softwares adequados à capacitação, nesse tipo de aplicação do mapeamento participativo, é uma das principais dificuldades encontrada para o uso dessa metodologia. Nas outras opções de mapeamento participativo o pesquisador deve também capacitar os participantes no uso do mapa antes da plotagem das informações, contudo, a apresentação do geoprocessamento não é enfatizada como no uso do SIG.
 
A opção por uma modalidade ou outra vai depender de diversos fatores, que refletirão diretamente na participação e nos resultados alcançados pela pesquisa, para isso, elencaremos algumas recomendações que podem ser seguidas na aplicação do mapeamento participativo como metodologia de análise territorial.
  • Para uma boa aplicação da metodologia, um bom relacionamento do pesquisador com a comunidade é a chave para o sucesso. Deve-se também utilizar uma linguagem simples, clara, criativa e que envolva todos os participantes.
  • É importante um planejamento adequado das atividades do mapeamento, para verificar e selecionar os conteúdos a serem representados (áreas de lazer, conflitos, comunitárias/coletivas, festas, religião, etc.), bem como os objetivos, metodologias de coleta de informações, materiais e equipamentos necessários, além de textos de apoio e a definição do público-alvo que participará da elaboração dos mapas.
  • Deve-se possuir o conhecimento prévio sobre o assunto que será coletado e sobre as características gerais da região pesquisada, pois é necessário o conhecimento antecipado dos costumes, principais ocupações dos moradores, meios de transporte, alimentação, etc., para serem debatidos e inquiridos antes do início da coleta de informações.
  • Antes de iniciar a aplicação da metodologia, os facilitadores precisam verificar a infraestrutura onde serão realizadas as reuniões, pois é importante possibilitar a participação de todos os moradores que desejam representar cartograficamente suas atividades ou seu modo de vida.
  • Durante o procedimento de plotagem das informações, a equipe de facilitadores tem como finalidade escutar os comunitários, encorajá-los, realizar perguntas, sondar e, principalmente, não interferir com preconceito de origem, etnia, gênero, religião, idade ou condição socioeconômica, pois a ênfase a esses temas pode gerar novos conflitos, inexistentes antes da aplicação da metodologia participativa.
  • Os facilitadores devem promover, com cautela e imparcialidade, durante a elaboração dos mapas participativos, atividades de inclusão e discussão em grupo, que permitirão aos indivíduos analisar de forma crítica os seus modos de vida e sua participação na comunidade.
  • A visão do entrevistado/mapeador das comunidades deve ser valorizada e ao transformar os dados em informação, os símbolos utilizados deverão ser reconhecidos por todos os participantes.
  • No decorrer da aplicação do procedimento, os mediadores devem atentar para falta de precisão e diferentes escalas, além de ter cuidado com as generalizações acentuadas.
  • É necessário a verificação das informações coletadas com o mapeamento participativo, que consiste em identificar e nomear feições conhecidas dos moradores, pois, devido à falta de precisão cartográfica e da generalização acentuada, com dados em diferentes escalas, é recomendada uma acareação das informações coletadas com mais de um morador, para evitar informações incorretas ou inverídicas.
  • No procedimento de mapeamento com base cartográfica é necessário ter vários mapas base da área estudada, em branco e impressos, para a coleta de diversas informações de sobreposição posterior, com a digitalização e vetorização posterior.
  • Se a técnica utilizada for o mapeamento com a carta-imagem, devem-se procurar imagens de sensores óticos (coloridas), que apresentem cores e tonalidades percebidas próximas do real. Todavia, é necessário ter cautela, uma vez que o uso de imagens de sensoriamento remoto são tendenciosas, pois apresentam feições do espaço que podem não ser percebidas e/ou informadas pelos interlocutores.
  • O pesquisador deverá apresentar o mapa final para as comunidades participantes para a confirmação da veracidade das informações. A disponibilização de diversas cópias do mapa final elaborado para a comunidade deve servir como ferramenta de reconhecimento e reafirmação do uso do território em documentos oficiais, como por exemplo, em planos de manejo ou outros.

Essas recomendações podem servir como suporte ao pesquisador durante a aplicação de técnicas de mapeamento participativo do território. Sabemos que existirão sugestões próprias e outras que o pesquisador encontrará somente em campo. Assim, a aplicação do mapeamento participativo não é uma receita terminada, a ser seguida cegamente. Antes de tudo, é uma metodologia de análise territorial que precisa ser entendida e adequada à realidade em foco.
 
Esperamos que esse post e o artigo publicado na revista Scientia Plena auxiliem o leitor na aplicação desta importante forma de representar e entender o território. 

Até a próxima...


Referências Bibliográficas

INTERNATIONAL FUND FOR AGRICULTURAL DEVELOPMENT, IFAD. Good practices in participatory mapping: a review prepared for the International Fund for Agricultural Development (IFAD). Italy: IFAD, 2009.

RAMBALDI, G., KYEM, P.K., MBILE, P., MCCALL, M. & WEINER, D. Participatory spatial information management and communication in developing countries. The Electronic Journal on Information Systems in Developing Countries. EJISDC (2006) 25, 1, 1-9. Disponível em: https://www.ejisdc.org/ojs2/index.php/ejisdc/article/viewFile/237/158. Acesso em: 7 mar 2016.
 
SILVA, C. N. et al. Qualificação profissional e a informação espacial: o Laboratório de Análise da Informação Geográfica (LAIG) em atividades de capacitação. In.: FERREIRA, C. E. S.; LIMA E SILVA, J. C.; CRUZ, P. R. S.; PASSOS, S. C. Geografia, gestão e segurança ambiental. Belém: GAPTA/UFPA, 2014, p. 11-26.







Geotecnologias Luís Lopes Designed by Templateism.com Copyright © 2014

Imagens do modelo de Bim. Tecnologia do Blogger.